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sábado, 16 de maio de 2026

A Exposição de 1953 em Lisboa (II): A Classe de Honra como Vitrine Institucional da Filatelia Mundial

 Folha de rosto do catálogo da Exposição Filatélica Internacional do Centenário do Selo Postal Português, Lisboa, 1953


Resumo

Este artigo divulga e analisa a Classe de Honra (Classe Oficial) da Exposição Filatélica Internacional do Centenário do Selo Postal Português, realizada em Lisboa em 1953. A partir do catálogo oficial da exposição, apresenta‑se uma síntese comentada das coleções institucionais reunidas por administrações postais, museus, casas da moeda, impressores e gravadores de selos de diversos países. Não competitiva, a Classe de Honra teve como objetivo afirmar o selo postal enquanto objeto histórico, artístico, técnico e diplomático, evidenciando primeiras emissões, séries completas, provas, cunhos e processos de produção. O texto destaca o papel desta classe como fonte documental essencial para o estudo das exposições filatélicas internacionais do século XX e da filatelia oficial.

 

Palavras chave: Exposição Filatélica Internacional de 1953; Classe de Honra; Filatelia portuguesa; Centenário do Selo Postal Português; História da filatelia; Filatelia institucional; Catálogo filatélico histórico; Património filatélico.

 

Introdução

No artigo anterior, vimos como a Exposição de 1953 foi um evento de Estado, chancelado pela cúpula do Governo e pelo rigor da FIP. Mas o que viram, afinal, os milhares de visitantes que acorreram ao Instituto Superior Técnico? A resposta começa na Classe de Honra (ou Classe Oficial), a verdadeira "vitrine diplomática" do certame. Diferente das classes competitivas, aqui não havia medalhas em jogo. O objetivo era a afirmação do selo como objeto histórico e artístico.

 

Nota metodológica e decisões editoriais

O presente artigo baseia-se na transcrição e análise do catálogo oficial da Exposição Filatélica Internacional do Centenário do Selo Postal Português, realizada em Lisboa em 1953.

As seguintes decisões e assunções metodológicas foram tomadas de forma consciente e são aqui explicitadas ao leitor:

  • Utilizou-se como fonte um exemplar digitalizado do catálogo original, preservando a designação dos países, organismos expositores e descrições tal como surgem no documento.
  • Procedeu-se a uma transcrição seletiva comentada, centrada exclusivamente na Classe de Honra (Classe Oficial), por ser esta a secção institucional e não competitiva da exposição.
  • Os textos multilingues repetidos (português / francês / inglês) foram mantidos apenas quando relevantes para a compreensão do conteúdo, evitando redundância excessiva.
  • Não se efetuou qualquer tentativa de hierarquização, valorização comparativa ou juízo crítico sobre os expositores; o objetivo é documental e histórico, não avaliativo.
  • Sempre que o catálogo apresenta descrições sucintas ou lacunares, estas são respeitadas sem extrapolação interpretativa.

Estas opções visam equilibrar rigor documental, clareza científica e legibilidade para o público filatélico alargado.

 

A Classe de Honra na Exposição Filatélica Internacional de 1953

Um retrato institucional da filatelia mundial no Centenário do Selo Postal Português

A Exposição Filatélica Internacional realizada em Lisboa, entre 3 e 11 de outubro de 1953, no edifício do Instituto Superior Técnico, constituiu um dos momentos mais significativos da história filatélica portuguesa do século XX. Organizada no contexto das comemorações do Centenário do Selo Postal Português, esta exposição apresentou uma estrutura expositiva cuidadosamente organizada, na qual assumiu particular relevância a denominada Classe de Honra, também designada como Classe Oficial.

Ao contrário das classes competitivas, a Classe de Honra não se destinava a julgamento ou atribuição de prémios, mas antes à representação institucional, histórica e técnica da filatelia, reunindo administrações postais, casas da moeda, museus postais e organismos estatais de múltiplos países. O seu objetivo era duplo: por um lado, evidenciar a evolução do selo postal enquanto instrumento de comunicação e soberania; por outro, demonstrar os processos artísticos, técnicos e industriais associados à sua produção.

Portugal como eixo central da Classe de Honra

Naturalmente, Portugal ocupou um lugar central nesta classe. A Administração-Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones apresentou álbuns de selos de Portugal Continental e Ultramarino, enquanto o Ministério do Ultramar, através da Direção-Geral do Fomento – Serviço de Valores Postais, exibiu emissões das províncias ultramarinas portuguesas. A Casa da Moeda reforçou a dimensão técnico-industrial da exposição ao apresentar a máquina utilizada na gravação dos primeiros selos portugueses, bem como uma coleção de cunhos em relevo.

Este conjunto evidencia uma intenção clara de afirmar a continuidade histórica, técnica e simbólica do selo português, integrando metrópole e ultramar numa narrativa filatélica coerente.

A presença internacional: administrações postais e museus

A Classe de Honra reuniu um vasto leque de países de diferentes continentes, entre os quais Alemanha, Argentina, Austrália, Bélgica, Canadá, Chile, China, Dinamarca, Egito, Espanha, Estados Unidos da América, Etiópia, Finlândia, França, Grã-Bretanha, Irlanda, Israel, Itália, Líbano, Libéria, Luxemburgo, Nova Zelândia, Países Baixos, Paquistão, Peru, Suécia, Turquia, União Sul-Africana, Vaticano, Liechtenstein e Suíça.

As coleções apresentadas variavam entre primeiras emissões nacionais, séries completas, selos comemorativos, correio aéreo, blocos, folhas inteiras, bem como estudos preparatórios, desenhos originais, provas de cunho e de impressão. Em vários casos, como no Canadá, Austrália, França, Suíça ou Países Baixos, é claramente visível a intenção pedagógica de mostrar o processo criativo do selo, desde o desenho inicial até à impressão final.

Destaca-se igualmente a presença de museus postais, como o da Dinamarca e dos Países Baixos, reforçando o diálogo entre filatelia, museologia e património cultural.

Cunhos, provas e génese do selo

Um dos aspetos mais relevantes da Classe de Honra de 1953 foi a forte incidência sobre a génese material do selo postal. Países como a Grã-Bretanha apresentaram cunhos originais históricos, incluindo o do célebre Penny Black de 1840, enquanto o Luxemburgo expôs de forma sistemática o percurso criativo de um selo específico, combinando desenho original, projetos, ensaios e provas.

Esta abordagem revela uma conceção de filatelia que ultrapassa o simples colecionismo de selos usados ou novos, afirmando-se antes como disciplina histórica, artística e técnica.

Impressores e gravadores: a filatelia enquanto arte industrial

A Classe de Honra integrou ainda um núcleo dedicado a impressores e gravadores de selos, como Courvoisier S.A., Bradbury, Wilkinson & Co., Thomas de la Rue & Co., Joh. Enschedé en Zonen e gravadores individuais como Arnaldo Fragoso ou o Prof. K. Seizinger. Estas presenças sublinham o reconhecimento do papel dos artistas e das casas impressoras na qualidade estética e técnica do selo postal.

Considerações finais

A Classe de Honra da Exposição Filatélica Internacional de 1953 constitui hoje uma fonte documental de enorme valor histórico, permitindo compreender como, a meio do século XX, os Estados e as instituições postais se viam a si próprios e à filatelia. Mais do que uma simples mostra de selos, tratou-se de uma afirmação cultural, técnica e diplomática do selo postal enquanto património comum.

Dar a conhecer esta classe ao público contemporâneo é, por isso, não apenas um exercício de memória filatélica, mas também um contributo para a valorização do selo como objeto histórico total.

 

Nota Curatorial:

Os próximos artigos darão continuidade à análise da Exposição Filatélica Internacional de 1953, a partir de uma leitura interpretativa do catálogo oficial do certame, entendido como fonte primária fundamental, mas não exclusiva. Serão abordados outros núcleos relevantes, nomeadamente o Salão de Honra, as classes de competição e os respetivos participantes, a medalha oficial da exposição, bem como os comerciantes filatélicos anunciantes no catálogo e diversas curiosidades documentais e organizativas. Importa, contudo, sublinhar que esta leitura documental não substitui a memória viva do evento, podendo ainda existir pessoas que nele participaram ou o visitaram e que poderão, através do seu testemunho, enriquecer e complementar a compreensão desta importante exposição filatélica internacional de meados do século XX.

 

Classe Oficial / Classe de Honra – Coleções apresentadas

 

1 – PORTUGAL
a) Administração-Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones
Álbuns de selos de Portugal continental e Ultramarino.

b) Ministério do Ultramar – Direcção-Geral do Fomento. Serviço de Valores Postais.
Emissões de selos das províncias do Ultramar português.

c) Casa da Moeda.
Máquina que gravou os primeiros selos portugueses.
Colecção de cunhos dos selos portugueses de relevo.

2 – ALEMANHA – Ministério dos Correios e Telecomunicações
Primeiras emissões dos antigos Estados alemães e do Império alemão e selos especiais da República Federal Alemã e de Berlim Ocidental.

3 – ARGENTINA – Direcção-Geral dos Correios e Telecomunicações
Estudos, provas e desenhos de selos comemorativos.

4 – AUSTRÁLIA – Direcção-Geral dos Correios e Telégrafos
Colecção dos primeiros selos gomados emitidos na Austrália e os primeiros selos da Comunidade Australiana e Canguru.
Collection of the first adhesive stamps issued in Australia and a full set of the first stamps of the Commonwealth of Australia and Kangaroo.

5 – BÉLGICA – Administração dos Correios belgas
Uma colecção dos mais notáveis selos belgas.

6 – CANADÁ – Ministério dos Correios
Desenhos originais, provas de cunho, provas de impressão obtidas no decorrer da preparação de novas emissões de selos canadianos.
Dessins originaux, des épreuves de coins, les épreuves de presse, obtenues au cours de la préparation de nouvelles émissions de timbres-poste canadiens.

7 – CHILE – Direcção-Geral dos Correios e dos Telégrafos
Colecção de selos do Chile desde a primeira emissão de 1853 até 1950.

8 – CHINA – Direcção-Geral dos Correios
Colecção de selos de emissões ordinárias, comemorativas e do correio aéreo.
Stamps collection of the ordinary, commemorative and air mail issues.

9 – DINAMARCA – Museu Postal e Telegráfico
Colecção de folhas de selos comemorativos e de beneficência.
Collection de feuilles de timbres-poste souvenirs et de bienfaisance.

10 – EGITO – Administração dos Correios
Últimas emissões de selos de correio ordinário, de avião, de porte pago e oficiais.
Timbre-poste ordinaire. Timbre-poste avion. Timbre-poste à percevoir. Timbre-poste Gouvernement (service de l’État).

11 – ESPANHA – Direcção-Geral de Correios e Telecomunicações
Espanha e territórios espanhóis em África.
España y territorios españoles en África.

12 – ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA DO NORTE – Direcção-Geral dos Correios
Um quadro decorativo consistindo de provas de cunho e de chapa.
A decorative frame consisting of die and plate proofs.

13 – ETIÓPIA – Direcção-Geral dos Serviços de Correio
Selos e Séries da Etiópia.

14 – FINLÂNDIA – Direcção-Geral dos Correios e Telégrafos
Colecção de espécimes originais e reimpressões dos primeiros selos da Finlândia.
Collection des spécimens originaux et des réimpressions des tout premiers timbres-poste de Finlande.

15 – FRANÇA – Administração dos Correios, Telégrafos e Telefones
8 painéis decorativos sobre os motivos filatélicos seguintes:
As obras de Arte; os artistas pintores; os monumentos religiosos; as paisagens de França; Paris; Versalhes; selos da França ultramarina.
8 panneaux décoratifs sur les sujets philatéliques suivants: Les œuvres d’Art; les artistes-peintres; les monuments religieux; les paysages de France; Paris; Versailles; timbres-poste de la France d’Outre-Mer.

16 – GRÃ-BRETANHA – Direcção-Geral dos Correios
Espécimes dos primitivos selos ingleses e acessórios filatélicos e o cunho original do «Penny Black» de 1840, o cunho «Reserve» retocado Humphry, o «Two Penny Blue» adaptado do cunho de Humphry e o «Half Penny» cunho de 1870.
Specimens of early British stamps and stamped stationery and the original die of the «Penny Black» stamp of 1840…

17 – IRLANDA – Administração dos Correios e Telégrafos
Selecção de selos britânicos com sobrecarga usados pela Administração Irlandesa durante o período de 1921–1923, e de selos notáveis irlandeses emitidos depois.

18 – ISRAEL – Direcção-Geral dos Correios, Telégrafos, Telefones e da Rádio

19 – ITÁLIA – Ministério dos Correios e das Telecomunicações
Selos do correio italianos.

20 – LÍBANO – Direcção-Geral do Ministério dos Correios e Telégrafos
Selos do Líbano reproduzindo o escudo e a bandeira.

21 – LIBÉRIA – Direcção-Geral dos Correios
Selos do correio da Libéria e do correio aéreo, emissões em circulação e fora da circulação, envelopes do primeiro dia, obliterações e reimpressões.

22 – LUXEMBURGO – Administração dos Correios, Telégrafos e Telefones
Colecção-tipo dos selos do Luxemburgo assim como um cartão mostrando a génese (…) do selo de 3 francos da série comemorativa do Centenário da Independência do Grão-Ducado.

23 – NOVA ZELÂNDIA – Direcção-Geral dos Correios e Telégrafos
Desenhos de artistas, provas de cunho e provas de chapa do Centenário dos selos da Cantuária.

24 – O. N. U. – Administração Postal das Nações Unidas
Colecção de selos das Nações Unidas e obliterações.

25 – PAÍSES BAIXOS – Museu Postal
A primeira emissão de 1852. A emissão de 1898. Projectos e selos de avião 1928 (blocos). Projectos e selos «Cour Internationale de Justice» 1951 (blocos).

26 – PAQUISTÃO – Direcção-Geral dos Correios e Telégrafos
Colecção de selos historiando a sua introdução no Paquistão desde 14 de Agosto de 1947 até aos nossos dias.

27 – PERU – Direcção dos Correios e Telecomunicações

28 – SUÉCIA – Direcção-Geral dos Correios

29 – TURQUIA – Direcção-Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones
Colecção de selos e blocos de 1930 a 1953.

30 – UNIÃO SUL-AFRICANA – Direcção-Geral dos Correios
Selos comemorativos da África do Sul.

31 – VATICANO – Direcção-Geral dos Serviços Económicos dos Correios e Telégrafos
Colecção de toda a série dos selos emitidos desde a fundação do Estado do Vaticano até à presente data.

32 – LIECHTENSTEIN
Desenhos originais, estudos, provas e os selos respectivos em folhas.

33 – SUÍÇA – Administração dos Correios, Telégrafos e Telefones
A criação dos selos da série em vigor «Técnica e Paisagem» (…) ilustrada pela apresentação de projectos, maquetas, ensaios, provas de cor e de impressão.

 

Impressores e Gravadores de Selos

34 – COURVOISIER S. A. – Casa Impressora – La Chaux-de-Fonds (Suíça)
Selecção de folhas de selos, impressas em uma ou em várias cores para os Correios suíços e numerosas administrações estrangeiras.

35 – BRADBURY, WILKINSON & COMPANY – New Malden (Grã‑Bretanha)
Espécimes de selos gravados em aço.

36 – THOMAS DE LA RUE & Co. Limited – Londres (Grã‑Bretanha)
Ensaios e provas da Grã‑Bretanha, Domínios e Colónias.

37 – FRAGOSO, Arnaldo Lourenço – Lisboa (Portugal)
Provas de selos portugueses gravados pelo expositor.

38 – JOH. ENSCHEDE EN ZONEN – fundada em 1703 – Haarlem (Países Baixos)
Selecção de alguns espécimes de selos impressos para diferentes países.

39 – SEIZINGER, Prof. K. – Haarlem (Países Baixos)
Ensaios e provas gravadas pelo expositor. Mostra‑se a Croácia, Portugal, a Jugoslávia e a Checoeslováquia.


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