Há peças que transcendem o simples colecionismo de fragmentos de papel serrilhado e se convertem em autênticas janelas para a nossa história cultural. Hoje, partilhamos uma viagem ao início de 1950 para redescobrir um dos episódios mais singulares e criativos do associativismo filatélico português: a III FLAVEX – Exposição Filatélica Artístico-Humorística, realizada na cidade do Porto.
Sob o lema «Arte e Humor nos Selos» e o sugestivo slogan «Conheça a poesia dos selos», este certame procurou romper com a visão tradicional da filatelia, aproximando-a da literatura, da caricatura, do humor gráfico e das artes visuais. Mais do que uma exposição, a III FLAVEX foi uma afirmação de que os selos podiam ser entendidos como objetos culturais e artísticos, capazes de dialogar com algumas das figuras intelectuais mais relevantes do seu tempo.
Um Postal com História e um Destinatário Ilustre
Como testemunho vivo deste evento, destaca-se um postal ilustrado comemorativo que circulou efetivamente entre o Porto e Lisboa.
• O Percurso: A peça foi obliterada no Porto a 21 de janeiro de 1950 com o carimbo comemorativo manual da exposição e recebeu, no dia seguinte (22 de janeiro), o datador mecânico de chegada a Lisboa. Esta dupla obliteração comprova o seu uso postal real no próprio ecossistema do evento.
• A Poesia: No anverso, exibe o poema "Pombo-Correio", da autoria de António Correia d'Oliveira, um dos mais reputados poetas portugueses do século XX.
• O Destinatário: O postal foi endereçado a uma figura incontornável da nossa história postal: o Brigadeiro José da Cunha Lamas (1889–1975), prestigiado militar, investigador e um dos maiores vultos da filatelia nacional.
A Vinheta Comemorativa: Uma "Cinderela" Portuense
No verso do postal, e também emitida como peça promocional autónoma, surge a elegante vinheta oficial da III FLAVEX, uma verdadeira cinderela filatélica portuguesa.
Impressa em bicromia (preto e vermelho), representa uma vista estilizada da cidade do Porto, onde se reconhecem elementos emblemáticos como a Ponte D. Luís I, a Torre dos Clérigos e o casario da cidade histórica. A vinheta possui ainda um apreciável valor documental, identificando os seus responsáveis: Flávio como autor do desenho (Flávio inv.) e T. M. Serqueira como impressor (T. M. Serqueira imp.).
O seu interesse patrimonial é acrescido pelo facto de ter sido autorizada por despacho ministerial de 21 de novembro de 1949, circunstância pouco comum para uma emissão promocional deste género. A tiragem de 10.000 exemplares demonstra igualmente a dimensão e a relevância institucional que a exposição alcançou.
O Catálogo: Muito Mais do que um Guia
Para complementar a memória da III FLAVEX, subsiste o Catálogo Oficial da Exposição, compilado por António Fragoso com a colaboração de Flávio de Gouveia Osório.
Impresso nas Oficinas de S. José, no Porto, teve uma tiragem limitada de apenas 1.550 exemplares numerados e rubricados, circunstância que por si só lhe confere interesse bibliográfico.
Todavia, uma descoberta recente veio acrescentar uma dimensão histórica ainda mais significativa: o exemplar estudado corresponde ao n.º 35 e foi oferecido ao Dr. Mário Gonçalves Viana, então Conservador-Chefe do Museu dos Correios.
Longe de ser uma mera lista de expositores, o catálogo assume a forma de um verdadeiro manifesto cultural, reunindo estudos filatélicos, caricaturas, anedotas ilustradas e colaborações de personalidades nacionais e estrangeiras, entre as quais o célebre gravador francês Pierre Gandon. Entre os expositores figurava ainda a própria Administração Geral dos CTT, evidenciando o apoio institucional concedido ao certame.
Um Encontro Notável Entre Cultura, Filatelia e Museologia
O que torna este conjunto particularmente fascinante é a forma como três objetos aparentemente distintos acabam por documentar o encontro simbólico de três personalidades de excecional relevância no panorama cultural português:
António Correia d'Oliveira, representando a literatura e a poesia;
José da Cunha Lamas, representando a investigação filatélica e a história postal;
Mário Gonçalves Viana, representando a museologia postal e a divulgação cultural.
A dedicatória ao Conservador-Chefe do Museu dos Correios assume especial significado quando recordamos que Mário Gonçalves Viana não foi apenas um responsável museológico. Pedagogo, ensaísta e figura central da coleção Biblioteca de Orientação Profissional sob a chancela "Domingos Barreira - Editor Livraria Simões Lopes", destacou-se como uma das figuras mais influentes da divulgação cultural portuguesa de meados do século XX.
Assim, estas peças não testemunham apenas uma exposição filatélica. Documentam uma rede de relações entre poetas, investigadores, museólogos, artistas gráficos, colecionadores e instituições públicas, revelando uma época em que a filatelia procurava afirmar-se como expressão cultural plena.
Valor Curatorial e Perspetivas de Investigação
Para além do seu inegável interesse histórico-postal, este conjunto permite compreender a extraordinária ambição cultural da III FLAVEX. O postal circulado, a vinheta oficialmente autorizada e o catálogo oferecido ao Conservador-Chefe do Museu dos Correios formam hoje um núcleo documental coerente que ultrapassa largamente o valor individual de cada peça.
Mais do que simples objetos filatélicos, são testemunhos materiais de um momento raro em que literatura, arte, museologia e história postal convergiram num mesmo projeto cultural.
Setenta e cinco anos depois, o postal que transporta os versos de António Correia d'Oliveira, o catálogo oferecido a Mário Gonçalves Viana e a correspondência dirigida a José da Cunha Lamas constituem muito mais do que simples relíquias filatélicas. Em conjunto, testemunham um momento singular em que poesia, filatelia e museologia convergiram num mesmo projeto cultural. É precisamente essa inesperada rede de ligações humanas que continua a tornar a III FLAVEX um capítulo tão fascinante da história postal portuguesa.




