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sábado, 16 de maio de 2026

A Exposição de 1953 em Lisboa (II): A Classe de Honra como Vitrine Institucional da Filatelia Mundial

 Folha de rosto do catálogo da Exposição Filatélica Internacional do Centenário do Selo Postal Português, Lisboa, 1953


Resumo

Este artigo divulga e analisa a Classe de Honra (Classe Oficial) da Exposição Filatélica Internacional do Centenário do Selo Postal Português, realizada em Lisboa em 1953. A partir do catálogo oficial da exposição, apresenta‑se uma síntese comentada das coleções institucionais reunidas por administrações postais, museus, casas da moeda, impressores e gravadores de selos de diversos países. Não competitiva, a Classe de Honra teve como objetivo afirmar o selo postal enquanto objeto histórico, artístico, técnico e diplomático, evidenciando primeiras emissões, séries completas, provas, cunhos e processos de produção. O texto destaca o papel desta classe como fonte documental essencial para o estudo das exposições filatélicas internacionais do século XX e da filatelia oficial.

 

Palavras chave: Exposição Filatélica Internacional de 1953; Classe de Honra; Filatelia portuguesa; Centenário do Selo Postal Português; História da filatelia; Filatelia institucional; Catálogo filatélico histórico; Património filatélico.

 

Introdução

No artigo anterior, vimos como a Exposição de 1953 foi um evento de Estado, chancelado pela cúpula do Governo e pelo rigor da FIP. Mas o que viram, afinal, os milhares de visitantes que acorreram ao Instituto Superior Técnico? A resposta começa na Classe de Honra (ou Classe Oficial), a verdadeira "vitrine diplomática" do certame. Diferente das classes competitivas, aqui não havia medalhas em jogo. O objetivo era a afirmação do selo como objeto histórico e artístico.

 

Nota metodológica e decisões editoriais

O presente artigo baseia-se na transcrição e análise do catálogo oficial da Exposição Filatélica Internacional do Centenário do Selo Postal Português, realizada em Lisboa em 1953.

As seguintes decisões e assunções metodológicas foram tomadas de forma consciente e são aqui explicitadas ao leitor:

  • Utilizou-se como fonte um exemplar digitalizado do catálogo original, preservando a designação dos países, organismos expositores e descrições tal como surgem no documento.
  • Procedeu-se a uma transcrição seletiva comentada, centrada exclusivamente na Classe de Honra (Classe Oficial), por ser esta a secção institucional e não competitiva da exposição.
  • Os textos multilingues repetidos (português / francês / inglês) foram mantidos apenas quando relevantes para a compreensão do conteúdo, evitando redundância excessiva.
  • Não se efetuou qualquer tentativa de hierarquização, valorização comparativa ou juízo crítico sobre os expositores; o objetivo é documental e histórico, não avaliativo.
  • Sempre que o catálogo apresenta descrições sucintas ou lacunares, estas são respeitadas sem extrapolação interpretativa.

Estas opções visam equilibrar rigor documental, clareza científica e legibilidade para o público filatélico alargado.

 

A Classe de Honra na Exposição Filatélica Internacional de 1953

Um retrato institucional da filatelia mundial no Centenário do Selo Postal Português

A Exposição Filatélica Internacional realizada em Lisboa, entre 3 e 11 de outubro de 1953, no edifício do Instituto Superior Técnico, constituiu um dos momentos mais significativos da história filatélica portuguesa do século XX. Organizada no contexto das comemorações do Centenário do Selo Postal Português, esta exposição apresentou uma estrutura expositiva cuidadosamente organizada, na qual assumiu particular relevância a denominada Classe de Honra, também designada como Classe Oficial.

Ao contrário das classes competitivas, a Classe de Honra não se destinava a julgamento ou atribuição de prémios, mas antes à representação institucional, histórica e técnica da filatelia, reunindo administrações postais, casas da moeda, museus postais e organismos estatais de múltiplos países. O seu objetivo era duplo: por um lado, evidenciar a evolução do selo postal enquanto instrumento de comunicação e soberania; por outro, demonstrar os processos artísticos, técnicos e industriais associados à sua produção.

Portugal como eixo central da Classe de Honra

Naturalmente, Portugal ocupou um lugar central nesta classe. A Administração-Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones apresentou álbuns de selos de Portugal Continental e Ultramarino, enquanto o Ministério do Ultramar, através da Direção-Geral do Fomento – Serviço de Valores Postais, exibiu emissões das províncias ultramarinas portuguesas. A Casa da Moeda reforçou a dimensão técnico-industrial da exposição ao apresentar a máquina utilizada na gravação dos primeiros selos portugueses, bem como uma coleção de cunhos em relevo.

Este conjunto evidencia uma intenção clara de afirmar a continuidade histórica, técnica e simbólica do selo português, integrando metrópole e ultramar numa narrativa filatélica coerente.

A presença internacional: administrações postais e museus

A Classe de Honra reuniu um vasto leque de países de diferentes continentes, entre os quais Alemanha, Argentina, Austrália, Bélgica, Canadá, Chile, China, Dinamarca, Egito, Espanha, Estados Unidos da América, Etiópia, Finlândia, França, Grã-Bretanha, Irlanda, Israel, Itália, Líbano, Libéria, Luxemburgo, Nova Zelândia, Países Baixos, Paquistão, Peru, Suécia, Turquia, União Sul-Africana, Vaticano, Liechtenstein e Suíça.

As coleções apresentadas variavam entre primeiras emissões nacionais, séries completas, selos comemorativos, correio aéreo, blocos, folhas inteiras, bem como estudos preparatórios, desenhos originais, provas de cunho e de impressão. Em vários casos, como no Canadá, Austrália, França, Suíça ou Países Baixos, é claramente visível a intenção pedagógica de mostrar o processo criativo do selo, desde o desenho inicial até à impressão final.

Destaca-se igualmente a presença de museus postais, como o da Dinamarca e dos Países Baixos, reforçando o diálogo entre filatelia, museologia e património cultural.

Cunhos, provas e génese do selo

Um dos aspetos mais relevantes da Classe de Honra de 1953 foi a forte incidência sobre a génese material do selo postal. Países como a Grã-Bretanha apresentaram cunhos originais históricos, incluindo o do célebre Penny Black de 1840, enquanto o Luxemburgo expôs de forma sistemática o percurso criativo de um selo específico, combinando desenho original, projetos, ensaios e provas.

Esta abordagem revela uma conceção de filatelia que ultrapassa o simples colecionismo de selos usados ou novos, afirmando-se antes como disciplina histórica, artística e técnica.

Impressores e gravadores: a filatelia enquanto arte industrial

A Classe de Honra integrou ainda um núcleo dedicado a impressores e gravadores de selos, como Courvoisier S.A., Bradbury, Wilkinson & Co., Thomas de la Rue & Co., Joh. Enschedé en Zonen e gravadores individuais como Arnaldo Fragoso ou o Prof. K. Seizinger. Estas presenças sublinham o reconhecimento do papel dos artistas e das casas impressoras na qualidade estética e técnica do selo postal.

Considerações finais

A Classe de Honra da Exposição Filatélica Internacional de 1953 constitui hoje uma fonte documental de enorme valor histórico, permitindo compreender como, a meio do século XX, os Estados e as instituições postais se viam a si próprios e à filatelia. Mais do que uma simples mostra de selos, tratou-se de uma afirmação cultural, técnica e diplomática do selo postal enquanto património comum.

Dar a conhecer esta classe ao público contemporâneo é, por isso, não apenas um exercício de memória filatélica, mas também um contributo para a valorização do selo como objeto histórico total.

 

Nota Curatorial:

Os próximos artigos darão continuidade à análise da Exposição Filatélica Internacional de 1953, a partir de uma leitura interpretativa do catálogo oficial do certame, entendido como fonte primária fundamental, mas não exclusiva. Serão abordados outros núcleos relevantes, nomeadamente o Salão de Honra, as classes de competição e os respetivos participantes, a medalha oficial da exposição, bem como os comerciantes filatélicos anunciantes no catálogo e diversas curiosidades documentais e organizativas. Importa, contudo, sublinhar que esta leitura documental não substitui a memória viva do evento, podendo ainda existir pessoas que nele participaram ou o visitaram e que poderão, através do seu testemunho, enriquecer e complementar a compreensão desta importante exposição filatélica internacional de meados do século XX.

 

Classe Oficial / Classe de Honra – Coleções apresentadas

 

1 – PORTUGAL
a) Administração-Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones
Álbuns de selos de Portugal continental e Ultramarino.

b) Ministério do Ultramar – Direcção-Geral do Fomento. Serviço de Valores Postais.
Emissões de selos das províncias do Ultramar português.

c) Casa da Moeda.
Máquina que gravou os primeiros selos portugueses.
Colecção de cunhos dos selos portugueses de relevo.

2 – ALEMANHA – Ministério dos Correios e Telecomunicações
Primeiras emissões dos antigos Estados alemães e do Império alemão e selos especiais da República Federal Alemã e de Berlim Ocidental.

3 – ARGENTINA – Direcção-Geral dos Correios e Telecomunicações
Estudos, provas e desenhos de selos comemorativos.

4 – AUSTRÁLIA – Direcção-Geral dos Correios e Telégrafos
Colecção dos primeiros selos gomados emitidos na Austrália e os primeiros selos da Comunidade Australiana e Canguru.
Collection of the first adhesive stamps issued in Australia and a full set of the first stamps of the Commonwealth of Australia and Kangaroo.

5 – BÉLGICA – Administração dos Correios belgas
Uma colecção dos mais notáveis selos belgas.

6 – CANADÁ – Ministério dos Correios
Desenhos originais, provas de cunho, provas de impressão obtidas no decorrer da preparação de novas emissões de selos canadianos.
Dessins originaux, des épreuves de coins, les épreuves de presse, obtenues au cours de la préparation de nouvelles émissions de timbres-poste canadiens.

7 – CHILE – Direcção-Geral dos Correios e dos Telégrafos
Colecção de selos do Chile desde a primeira emissão de 1853 até 1950.

8 – CHINA – Direcção-Geral dos Correios
Colecção de selos de emissões ordinárias, comemorativas e do correio aéreo.
Stamps collection of the ordinary, commemorative and air mail issues.

9 – DINAMARCA – Museu Postal e Telegráfico
Colecção de folhas de selos comemorativos e de beneficência.
Collection de feuilles de timbres-poste souvenirs et de bienfaisance.

10 – EGITO – Administração dos Correios
Últimas emissões de selos de correio ordinário, de avião, de porte pago e oficiais.
Timbre-poste ordinaire. Timbre-poste avion. Timbre-poste à percevoir. Timbre-poste Gouvernement (service de l’État).

11 – ESPANHA – Direcção-Geral de Correios e Telecomunicações
Espanha e territórios espanhóis em África.
España y territorios españoles en África.

12 – ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA DO NORTE – Direcção-Geral dos Correios
Um quadro decorativo consistindo de provas de cunho e de chapa.
A decorative frame consisting of die and plate proofs.

13 – ETIÓPIA – Direcção-Geral dos Serviços de Correio
Selos e Séries da Etiópia.

14 – FINLÂNDIA – Direcção-Geral dos Correios e Telégrafos
Colecção de espécimes originais e reimpressões dos primeiros selos da Finlândia.
Collection des spécimens originaux et des réimpressions des tout premiers timbres-poste de Finlande.

15 – FRANÇA – Administração dos Correios, Telégrafos e Telefones
8 painéis decorativos sobre os motivos filatélicos seguintes:
As obras de Arte; os artistas pintores; os monumentos religiosos; as paisagens de França; Paris; Versalhes; selos da França ultramarina.
8 panneaux décoratifs sur les sujets philatéliques suivants: Les œuvres d’Art; les artistes-peintres; les monuments religieux; les paysages de France; Paris; Versailles; timbres-poste de la France d’Outre-Mer.

16 – GRÃ-BRETANHA – Direcção-Geral dos Correios
Espécimes dos primitivos selos ingleses e acessórios filatélicos e o cunho original do «Penny Black» de 1840, o cunho «Reserve» retocado Humphry, o «Two Penny Blue» adaptado do cunho de Humphry e o «Half Penny» cunho de 1870.
Specimens of early British stamps and stamped stationery and the original die of the «Penny Black» stamp of 1840…

17 – IRLANDA – Administração dos Correios e Telégrafos
Selecção de selos britânicos com sobrecarga usados pela Administração Irlandesa durante o período de 1921–1923, e de selos notáveis irlandeses emitidos depois.

18 – ISRAEL – Direcção-Geral dos Correios, Telégrafos, Telefones e da Rádio

19 – ITÁLIA – Ministério dos Correios e das Telecomunicações
Selos do correio italianos.

20 – LÍBANO – Direcção-Geral do Ministério dos Correios e Telégrafos
Selos do Líbano reproduzindo o escudo e a bandeira.

21 – LIBÉRIA – Direcção-Geral dos Correios
Selos do correio da Libéria e do correio aéreo, emissões em circulação e fora da circulação, envelopes do primeiro dia, obliterações e reimpressões.

22 – LUXEMBURGO – Administração dos Correios, Telégrafos e Telefones
Colecção-tipo dos selos do Luxemburgo assim como um cartão mostrando a génese (…) do selo de 3 francos da série comemorativa do Centenário da Independência do Grão-Ducado.

23 – NOVA ZELÂNDIA – Direcção-Geral dos Correios e Telégrafos
Desenhos de artistas, provas de cunho e provas de chapa do Centenário dos selos da Cantuária.

24 – O. N. U. – Administração Postal das Nações Unidas
Colecção de selos das Nações Unidas e obliterações.

25 – PAÍSES BAIXOS – Museu Postal
A primeira emissão de 1852. A emissão de 1898. Projectos e selos de avião 1928 (blocos). Projectos e selos «Cour Internationale de Justice» 1951 (blocos).

26 – PAQUISTÃO – Direcção-Geral dos Correios e Telégrafos
Colecção de selos historiando a sua introdução no Paquistão desde 14 de Agosto de 1947 até aos nossos dias.

27 – PERU – Direcção dos Correios e Telecomunicações

28 – SUÉCIA – Direcção-Geral dos Correios

29 – TURQUIA – Direcção-Geral dos Correios, Telégrafos e Telefones
Colecção de selos e blocos de 1930 a 1953.

30 – UNIÃO SUL-AFRICANA – Direcção-Geral dos Correios
Selos comemorativos da África do Sul.

31 – VATICANO – Direcção-Geral dos Serviços Económicos dos Correios e Telégrafos
Colecção de toda a série dos selos emitidos desde a fundação do Estado do Vaticano até à presente data.

32 – LIECHTENSTEIN
Desenhos originais, estudos, provas e os selos respectivos em folhas.

33 – SUÍÇA – Administração dos Correios, Telégrafos e Telefones
A criação dos selos da série em vigor «Técnica e Paisagem» (…) ilustrada pela apresentação de projectos, maquetas, ensaios, provas de cor e de impressão.

 

Impressores e Gravadores de Selos

34 – COURVOISIER S. A. – Casa Impressora – La Chaux-de-Fonds (Suíça)
Selecção de folhas de selos, impressas em uma ou em várias cores para os Correios suíços e numerosas administrações estrangeiras.

35 – BRADBURY, WILKINSON & COMPANY – New Malden (Grã‑Bretanha)
Espécimes de selos gravados em aço.

36 – THOMAS DE LA RUE & Co. Limited – Londres (Grã‑Bretanha)
Ensaios e provas da Grã‑Bretanha, Domínios e Colónias.

37 – FRAGOSO, Arnaldo Lourenço – Lisboa (Portugal)
Provas de selos portugueses gravados pelo expositor.

38 – JOH. ENSCHEDE EN ZONEN – fundada em 1703 – Haarlem (Países Baixos)
Selecção de alguns espécimes de selos impressos para diferentes países.

39 – SEIZINGER, Prof. K. – Haarlem (Países Baixos)
Ensaios e provas gravadas pelo expositor. Mostra‑se a Croácia, Portugal, a Jugoslávia e a Checoeslováquia.


terça-feira, 12 de maio de 2026

Evolução Marcofílica e Tarifária em Lagoa - Algarve (1895-1944)

Folha de coleção de história postal de Lagoa, Algarve, com selos de D. Carlos I e Caravela, marcas de luto e carimbos de Ferragudo e Estombar.


Nesta folha de coleção da autoria de Sérgio G. Pedro, exploramos um período de transição fundamental na História Postal do Algarve. O foco incide sobre o concelho de Lagoa, documentando a passagem dos antigos carimbos de barras para a sofisticação dos carimbos datadores.
Destaques da Investigação:
  • Diversidade Marcofílica: A peça apresenta o uso de carimbos raros das estações de Ferragudo, Estombar (com grafia de época) e Lâgoa. Destaca-se a evolução geométrica dos carimbos, desde os modelos de quadro de cantos cortados (Tipo 1880) até aos datadores de quadro retangular (Tipo 1928).
  • História das Tarifas: Através de exemplares das emissões D. Carlos I, Infante D. Henrique e Caravela, a folha ilustra a descida tarifária para impressos e bilhetes de visita no serviço interno — uma curiosidade histórica onde o porte reduziu de 15c para 10c entre 1938 e 1943.
  • Marcas de Trânsito e Luto: O uso de sobrescritos de luto pesado permite-nos analisar não só o contexto social, mas também o rigor do serviço postal, evidenciado por marcas de chegada em Faro batidas inclusive em feriados nacionais (5 de Outubro).
Esta folha integra o projeto "Contributos para a História Postal do Algarve", disponível no acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro. É um exemplo de como a filatélia de exposição combina o rigor técnico da FIP com a preservação da memória regional algarvia.

sábado, 9 de maio de 2026

A Exposição de 1953 em Lisboa: Do Crepúsculo da Época de Ouro à Institucionalização das Normas da FIP


O catálogo abre com um frontispício ilustrado, onde se destaca não só o General Craveiro Lopes, mas também o selo de 1$00 da série centenária, devidamente obliterado com o carimbo especial do certame. 


Peça em análise: Catálogo da Exposição Filatélica Internacional de Lisboa (1953). Coleção: Museu de Filatelia Sérgio Pedro — Série: Catálogos de exposições).

Em outubro de 1953, Lisboa transformou-se na capital mundial da filatelia. Comemorava-se o primeiro centenário do selo postal português (1853-1953) e, para assinalar a data, organizou-se um evento de dimensões raramente vistas no nosso país. Através do Catálogo Oficial da exposição — um documento de inventário técnico e histórico — propomos uma visita guiada aos bastidores e à estrutura deste certame que marcou uma era.

1. O Enquadramento Institucional: Um Evento de Estado
A Exposição de 1953 não foi apenas uma reunião de colecionadores; foi um evento de alta representação nacional. Sob o Alto Patrocínio do Presidente da República General Craveiro Lopes, a Comissão de Honra (pág. 13) reunia a cúpula do Governo, incluindo os Ministros do Ultramar, da Educação Nacional e das Comunicações.
Esta estrutura reflete a importância que o Estado atribuía ao selo como símbolo de soberania e cultura. A organização executiva, liderada por figuras como Godofredo Ferreira e o Prof. Dr. Carlos Pinto Trincão, garantiu que o evento tivesse o rigor técnico necessário para acolher o Congresso da Federação Internacional de Filatelia (FIP).
2. O Júri Internacional: A Excelência Técnica Mundial
Um dos aspetos mais notáveis que o catálogo nos revela (págs. 15-16) é a qualidade do corpo de jurados. Lisboa conseguiu reunir especialistas de 13 países, incluindo nomes que são hoje lendas da filatelia mundial:
  • Sir John Wilson (Inglaterra): O célebre conservador da Coleção Real Britânica.
  • Dr. Mario Diena (Itália): Representante de uma das mais prestigiadas dinastias de peritos filatélicos.
  • Ernest A. Kehr (EUA): Renomado jornalista e divulgador filatélico.
A presença destes peritos, juntamente com delegados da FIP, assegurou que as coleções expostas fossem avaliadas segundo os mais exigentes padrões internacionais de "conhecimento, tratamento e raridade".
3. A Ética e a Proteção do Colecionismo
Nas páginas 9 e 10, encontramos uma mensagem fundamental de E. Friederich, então Presidente da FIP. O seu texto é um verdadeiro guia de "boas práticas" para a época. Friederich sublinha a importância da FIP na luta contra falsificações e "emissões abusivas", defendendo que o colecionismo deve assentar no estudo erudito e na integridade das peças. Este foco na ética profissional foi um dos grandes legados do Congresso de Lisboa para a filatelia moderna.
4. O Roteiro da Exposição: Do Instituto Superior Técnico (IST) aos Palácios Nacionais
O programa do evento (págs. 25-26) revela uma organização minuciosa que extravasava as salas do Instituto Superior Técnico. A exposição foi acompanhada por um calendário de sociabilidade que visava dar a conhecer o património português aos delegados estrangeiros:
  • Cultura e Arte: Uma récita de gala no Teatro Nacional de São Carlos.
  • História e Património: Visitas ao Museu dos Coches, Sintra e Vila Viçosa (Paço Ducal).
  • Consagração: A cerimónia do Roll of Distinguished Philatelists, onde os maiores nomes da filatelia mundial deixaram a sua assinatura para a posteridade.
5. O Catálogo como Documento Científico
Como refere a mensagem de abertura (pág. 7), este catálogo foi concebido para ser mais do que um guia: é um inventário de preciosas coleções. A organização abdicou propositadamente de textos históricos longos para dar primazia à listagem técnica das peças, criando um documento de referência que ainda hoje é consultado por investigadores da história postal.
Conclusão
A Exposição de 1953 permanece como um marco de excelência na história da filatelia portuguesa. Mais do que uma mostra de selos, foi um momento de intercâmbio científico e cultural que elevou o nome de Portugal no contexto internacional.
Contudo, quando observada à distância de sete décadas, a Exposição de 1953 surge também como o derradeiro fôlego da era clássica. O catálogo documenta o instante em que a elite filatélica cristalizou os valores da Época de Ouro como património histórico, aceitando, em simultâneo, o advento de uma nova ordem mundial regida pelo rigor das normas da FIP e pela modernidade tecnológica.

Nota Curatorial: Nos próximos artigos, entraremos no detalhe das coleções participantes e conheceremos os comerciantes que, nas suas bancas no IST, ajudaram a dinamizar o mercado filatélico de meados do século XX.

sábado, 2 de maio de 2026

A Marca do Tempo: O Carimbo da I Exposição Filatélica Nacional em 1935

Carimbo Comemorativo 1.ª Exposição Filatélica Portuguesa (1935)

A I Exposição Filatélica Portuguesa, realizada em junho de 1935, constitui um marco fundamental para compreendermos a filatelia não apenas como um passatempo, mas como um relevante bem cultural, artístico e patriótico. Este evento histórico, que teve lugar nos salões da Câmara Municipal de Lisboa, oferece lições valiosas sobre a profundidade e a organização desta atividade.

O Selo como Arte e o Carimbo como Valor Filatélico

Um dos aspetos pedagógicos centrais da época é que cada selo deve ser encarado como uma pequena obra de arte, mas o seu valor histórico atinge o auge quando autenticado pela marca postal. Enquanto a exposição de 1935 celebrava o génio de Francisco de Borja Freire — o gravador dos primeiros selos de relevo de 1853 — o evento criava a sua própria Estação Postal da Exposição Filatélica. Como indicavam os anúncios da época, toda a correspondência de figuras como Luiz de Sá Nogueira era canalizada para esta estação específica, com um objetivo claro: garantir que o selo comemorativo fosse obliterado com o carimbo exclusivo daquele certame. Esta marca, de uso restrito e temporário, transformou-se no "melhor recordação" e num "seguro valor filatélico", demonstrando que a beleza da gravura nacional ganha uma nova dimensão de raridade quando acompanhada por uma obliteração comemorativa que imortaliza o momento e o local da sua circulação.

Organização e Metodologia no Colecionismo

Para quem deseja elevar o nível da sua coleção, a estrutura da exposição de 1935 serve como um excelente guia metodológico. O certame foi organizado em classes e grupos que ainda hoje definem o rigor do colecionismo:

  • Coleções de Estudo: Focadas na investigação técnica sobre o selo (cunhos, variedades, papel).
  • Coleções Especializadas: Que utilizam conhecimentos filatélicos aprofundados sobre uma emissão ou tema específico.
  • Coleções de Catálogo: Organizadas com o objetivo de reunir os selos de um país seguindo os guias gerais.
  • Literatura Filatélica: Essencial para o suporte científico e histórico do colecionador.
Um Espelho da História Nacional

Do ponto de vista pedagógico, os selos funcionam como um curso visual de história nacional. Através das emissões exibidas em 1935, era possível traçar a biografia de figuras cimeiras como D. Afonso Henriques, D. João I, Vasco da Gama ou Luís de Camões, além de identificar monumentos e produtos das colónias que compunham a identidade portuguesa da época.

O Reconhecimento Institucional

A importância do evento foi validada pela presença das mais altas esferas do Estado. A inauguração contou com a visita do Chefe de Estado, que observou de perto o património da Casa da Moeda, incluindo máquinas impressoras, matrizes e cunhos originais. Esta colaboração entre entidades oficiais e colecionadores particulares sublinha que a filatelia é uma responsabilidade partilhada na preservação da memória da Nação.

Em suma, a memória da exposição de 1935 recorda-nos que ser colecionador é ser um guardião da história, exigindo estudo, paciência e um olhar crítico sobre o detalhe.





Biblioteca Nacional Digital - 1ª Exposição filatélica portuguesa / org. Câmara Municipal de Lisboa. - Lisboa : Câmara Municipal de Lisboa, 1935. - [8], 32 p. : il. ; 21 cm

Fotografia: O Chefe de Estado observa um cunho da Casa da Moeda durante uma exposição filatélica. 1 de junho de 1935.

Vídeo RTP: Inauguração da 1.ª Exposição Filatélica Nacional


Ficha de catálogo do sobrescrito no blog Acervo e Ensaio do Museu de Filatelia com o código PT-SOB-1935-AFI546-CCO-ECOT

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