Os Amigos da Filatelia
Bem-vindo ao blog Os Amigos da Filatelia. Fundado em 2010, o nosso grupo dedica-se exclusivamente ao estudo e partilha da cultura filatélica. Somos um projeto sem fins comerciais e não possuímos qualquer ligação a grupos homónimos em redes sociais. O nosso foco é, e será sempre, o colecionismo autêntico e a divulgação da filatelia.
Pesquisar neste blogue
📌 “Este blog integra o ecossistema: Museu de Filatelia Sérgio Pedro
segunda-feira, 13 de julho de 2026
Um lugar para o Colecionismo: Como o século XIX via o Mundo (um álbum de selos que ensinava muito mais que filatelia)
sábado, 11 de julho de 2026
Acervo & Ensaio — Museu de Filatelia Sérgio Pedro: Quando uma Sobrecarga Levanta Dúvidas: o Caso de um «1893 Provisório» com Carimbo de 6 de Fevereiro de 1893
Acervo & Ensaio — Museu de Filatelia Sérgio Pedro: Portugal, D. Luís I, 5 Réis Preto com Sobrecarga «...:
Na filatelia clássica portuguesa existem peças que não fornecem respostas imediatas. Pelo contrário: obrigam o colecionador a investigar, a questionar e a confrontar diferentes hipóteses.
Foi precisamente isso que aconteceu durante o estudo de um selo de D. Luís I, 5 réis preto, apresentando a sobrecarga vermelha «1893 PROVISÓRIO» e obliterado pelo carimbo circular datador «ESTRADA DE SACAVÉM», com data legível de 6 FEV 93.
À primeira vista, poderia tratar-se apenas de mais um exemplar dos provisórios portugueses de 1893. Contudo, uma análise mais aprofundada colocou uma questão inesperada:
Como pode um selo apresentar uma data postal de fevereiro de 1893 se a variedade catalogada só teria entrado oficialmente em circulação meses mais tarde?
O objetivo deste artigo não é declarar a peça autêntica ou falsa, mas documentar o processo de análise de um exemplar problemático, discutindo de forma crítica os diferentes caminhos interpretativos que a evidência disponível permite considerar.
A peça em estudo
Os elementos observados são os seguintes:
- Selo-base: D. Luís I, 5 réis preto;
- Sobrecarga vermelha: «1893 PROVISÓRIO»;
- Carimbo: «ESTRADA DE SACAVÉM»;
- Data visível: 6 FEV 93;
- Carimbo Circular Datador (CCD) Tipo 1880;
- Marca postal classificada por Gordon com raridade 5 (escala 1–10).
A peça foi analisada através da observação da frente, ampliações de pormenor e verso.
Onde surge o problema?
A questão resulta da coexistência de dois elementos aparentemente incompatíveis.
Facto n.º 1
O carimbo lê-se, com razoável segurança, como:
6 FEV 93
ou seja, 6 de fevereiro de 1893.
Facto n.º 2
Segundo a identificação catalográfica adotada para o estudo, a sobrecarga corresponde ao selo normalmente catalogado como Mundifil n.º 89, cuja entrada oficial em circulação é indicada para 3 de agosto de 1893.
Se ambas as informações estiverem corretas, surge uma incompatibilidade cronológica objetiva.
Caminho 1 — A leitura da data está errada?
Esta deve ser sempre a primeira hipótese a ser testada.
Os datadores portugueses do século XIX apresentam frequentemente:
- impressões incompletas;
- desgaste;
- excesso de tinta;
- algarismos mal posicionados.
Por essa razão, qualquer leitura deve ser confirmada por observação cuidadosa.
No presente caso, sucessivas ampliações permitiram identificar de forma consistente:
6 FEV 93
Embora apenas um exame físico direto permita eliminar totalmente qualquer dúvida, a hipótese de erro de leitura parece atualmente pouco provável.
Caminho 2 — Erro de manuseamento do datador postal
Os datadores da época eram regulados manualmente.
Os funcionários alteravam diariamente os blocos correspondentes ao dia, mês e ano.
A literatura de história postal documenta numerosos casos de:
- meses incorretos;
- anos incorretos;
- datas mantidas durante vários dias por lapso.
Assim, uma possibilidade teórica consiste em admitir que o selo tenha sido obliterado numa data posterior, permanecendo o datador incorretamente regulado.
Trata-se de uma hipótese perfeitamente plausível do ponto de vista postal.
Contudo, sem documentação complementar ou exemplares comparativos da mesma estação, a hipótese permanece especulativa.
Caminho 3 — Utilização excecionalmente precoce da emissão
Outra possibilidade seria a utilização efetiva da sobrecarga antes da data oficialmente registada nos catálogos.
Sabe-se que, em determinadas circunstâncias, os selos podiam chegar aos balcões antes da data formalmente publicada ou ser distribuídos de forma irregular.
No entanto, esta explicação suscita uma nova questão.
A peça não se encontra obliterada em Lisboa Central nem numa grande administração postal do país.
O carimbo pertence a:
ESTRADA DE SACAVÉM
uma instalação postal periférica da região lisboeta.
Isso coloca uma pergunta historicamente relevante:
Será plausível que um provisório ainda não oficialmente colocado em circulação apareça precisamente numa estação de movimento relativamente reduzido?
A hipótese não é impossível, mas exige apoio documental que, até ao momento, não foi localizado.
Caminho 4 — A sobrecarga foi aplicada posteriormente?
Esta é, naturalmente, a hipótese que surge de imediato na mente de muitos filatelistas.
O raciocínio é simples:
- O selo de 5 réis circulou normalmente.
- Foi obliterado em fevereiro de 1893.
- A sobrecarga foi aplicada posteriormente sobre um selo já inutilizado.
Historicamente, este tipo de fenómeno é conhecido.
A forte procura por algumas emissões provisórias portuguesas levou ao aparecimento de:
- sobrecargas especulativas;
- reimpressões;
- manipulações filatélicas;
- falsificações destinadas ao mercado colecionista.
Contudo, importa sublinhar um princípio fundamental da investigação filatélica:
Uma hipótese plausível não constitui uma prova.
O que revelaram as ampliações?
Foram analisadas diversas macrofotografias dos cruzamentos entre:
- a sobrecarga vermelha;
- a obliteração preta;
- as linhas finas do desenho do selo.
Inicialmente parecia existir evidência de que a tinta vermelha cobria a tinta preta.
Contudo, ampliações posteriores revelaram uma realidade muito menos conclusiva.
Em particular, o estudo da letra «O» da palavra PROVISÓRIO mostrou que:
- não é possível determinar com segurança qual das impressões foi aplicada primeiro;
- os cruzamentos das tintas permanecem ambíguos;
- a fotografia não permite estabelecer uma sequência física inequívoca.
Por outras palavras:
As imagens disponíveis não demonstram de forma conclusiva que a sobrecarga seja posterior à obliteração.
O que sabemos com segurança?
Apesar das dúvidas existentes, alguns elementos podem ser considerados relativamente sólidos:
✅ O selo-base é um D. Luís I de 5 réis.
✅ O carimbo «ESTRADA DE SACAVÉM» é compatível com o período.
✅ A leitura «6 FEV 93» parece consistente.
✅ Existe uma sobrecarga vermelha «1893 PROVISÓRIO».
✅ A cronologia observada exige explicação.
O verdadeiro interesse da peça
Independentemente da conclusão futura, esta peça possui um enorme valor pedagógico.
Ela demonstra que a filatelia não se resume à identificação de números de catálogo.
A investigação obriga a cruzar:
- filatelia;
- marcofilia;
- cronologia postal;
- história administrativa dos correios;
- análise de impressão;
- metodologia pericial.
Ou seja, a peça transforma-se num verdadeiro exercício de crítica histórica aplicada aos documentos postais.
O que seria necessário para avançar?
A resolução definitiva do caso exigiria:
- exame microscópico direto das tintas;
- comparação da sobrecarga com exemplares certificados;
- estudo tipométrico das letras;
- pesquisa de outras utilizações conhecidas da mesma sobrecarga;
- levantamento de exemplares semelhantes com carimbo «ESTRADA DE SACAVÉM».
Só através desse conjunto de evidências seria possível aproximar-se de uma conclusão definitiva.
Conclusão
O caso deste «1893 PROVISÓRIO» obliterado em Estrada de Sacavém a 6 de fevereiro de 1893 permanece em aberto.
A peça não permite afirmar, de forma categórica, que a sobrecarga seja falsa. Mas também não permite aceitar sem reservas que represente uma utilização postal normal da emissão catalogada.
Neste momento, a conclusão mais prudente é simultaneamente a mais interessante:
Estamos perante uma peça que apresenta uma incongruência cronológica genuína e que merece investigação adicional.
E talvez seja precisamente aí que reside o fascínio da filatelia: algumas peças contam uma história; outras obrigam-nos a descobri-la.
sexta-feira, 10 de julho de 2026
📝 Do Algarve para a Corte: Dois Documentos do Arquivo do Armeiro-Mor Reunidos no Museu de Filatelia Sérgio Pedro
Uma Ordem Régia e uma Capa de Expedição em Correio Oficial que documentam a produção e remessa das Cartas Topográficas dos Sapais e Salgados do Algarve no século XVIII.
A reunião de peças que dialogam entre si no âmbito do mesmo processo administrativo confere uma dimensão excecional ao estudo da Pré-Filatelia e da História Postal. Constitui, por isso, motivo de legítima satisfação para o Museu de Filatelia Sérgio Pedro a integração no seu acervo de dois notáveis testemunhos documentais do período pombalino: uma Ordem Régia datada de 12 de março de 1773 e uma Capa de Expedição em Correio Oficial associada ao mesmo processo. Raramente sobrevivem, reunidos, documentos que permitam acompanhar com tal clareza o percurso de uma determinação régia desde a sua emissão até à circulação dos resultados produzidos, preservando simultaneamente a memória de um capítulo profundamente ligado à história do Algarve.
Raramente sobrevivem, reunidos, documentos que permitam acompanhar com tal clareza o percurso de uma determinação régia desde a sua emissão até à circulação dos resultados produzidos. Provenientes, ao que tudo indica, do antigo arquivo do Armeiro-Mor do Reino — destinatário da ordem inicial e da subsequente remessa cartográfica —, estas peças chegaram até nós preservando a continuidade de um mesmo processo administrativo. A sua reunião no acervo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro constitui, por isso, um motivo de particular satisfação, permitindo conservar e divulgar um testemunho singular da ação do Estado no Algarve setecentista.
Vamos analisar como uma Ordem Régia deu origem a um levantamento no terreno e, posteriormente, a uma Capa de Expedição em Correio Oficial enviada à Corte, indício material da remessa dos resultados cartográficos produzidos no âmbito desse processo administrativo.
FASE 1: A REQUISIÇÃO (12 de Março de 1773)
┌──────────────────────────────────────────────────────────┐
│ Carta de Tavira (Sá Sampaio) ──► Destino: Armeiro-Mor │
│ Conteúdo: Ordem de Sua Majestade para desenhar mapas. │
└──────────────────────────┬───────────────────────────────┘
│ (Estafeta Militar)
▼
FASE 2: A EXECUÇÃO DOS TRABALHOS CARTOGRÁFICOS
┌──────────────────────────────────────────────────────────┐
│ Engenheiros no terreno mapeiam Sapais e Salgados. │
│ Trabalho prolonga-se no tempo dada a extensão da costa. │
└──────────────────────────┬───────────────────────────────┘
│ (Estafeta Militar)
▼
FASE 3: O FECHO DE CONTAS (Documento Posterior / Sem Data)
┌──────────────────────────────────────────────────────────┐
│ Capa de Remessa com o "Preço das Cartas" para Lisboa. │
│ Visto do Desembargador da Alfândega garante o balanço. │
└──────────────────────────────────────────────────────────┘- O Destinatário: Dirigida em mão ao Armeiro-Mor do Reino, D. José Francisco da Costa e Sousa (futuro Visconde de Mesquitela).
- A Natureza Postal: Um Documento de Serviço Oficial sem quaisquer marcas postais ou taxas. A ausência de marcas postais ou de porte sugere a utilização de canais oficiais de transporte documental, eventualmente associados aos circuitos administrativos ou militares da Coroa. O percurso exato da remessa permanece, contudo, por determinar.
- O Conteúdo Estratégico: Invocando uma ordem direta de El-Rei D. José I, o Governador solicita a mobilização urgente dos engenheiros militares que se encontravam no Alentejo para descerem ao Algarve. O objetivo era duplo: projetar uma nova estrada entre Monchique e Portimão e realizar o inventário cartográfico exaustivo de todos os sapais, salgadas e marinhas de sal do litoral algarvio (desde Lagos até Castro Marim).
- Os Salários (Orçamento Central): Os engenheiros pertenciam ao exército regular. Os seus ordenados base saíam continuamente do Ministério da Guerra, sem peso extra para a região.
- Os Custos de Campo ("O Preço"): Os trabalhos de levantamento e desenho cartográfico implicavam despesas extraordinárias, cuja natureza exata não é discriminada nos documentos preservados. A referência ao "Preço das Cartas Topographicas" demonstra, contudo, que existia uma componente financeira associada à execução dos trabalhos.
- A Alfândega como "Caixa Pagadora": Transportar malas de moedas de Lisboa para o sul era lento e perigoso. A Coroa recorria, por isso, à consignação de receitas. O Rei ordenava que a Alfândega de Tavira adiantasse o dinheiro localmente, retendo as receitas dos impostos cobrados sobre o próprio sal da região.
- Possível Fase de Encerramento Administrativo: A expressão "... e Preço das Cartas Topographicas dos Sapáes e Salgados" indica que a remessa incluía documentação relativa às cartas produzidas e aos respetivos custos. Embora a ausência de data impeça uma reconstrução cronológica absoluta, o documento parece corresponder a uma fase posterior à ordem inicial de 1773.
- O Endereçamento: Mantém o protocolo estrito, subindo em dignidade visual para o mesmo Armeiro-Mor de Portugal em Lisboa.
- O Visto Fiscal: A última linha dita o encerramento contabilístico: "Do Dez.or Superinte.te da Alf.a" (Do Desembargador Superintendente da Alfândega).
quinta-feira, 9 de julho de 2026
Raul, Adelina e um Postal de Fantasia: Sociabilidade e Memória na Horta de 1915
A história do colecionismo é feita de pequenos objetos que, quando observados com atenção, revelam muito mais do que a sua aparência sugere. É precisamente o caso deste bilhete-postal ilustrado enviado na Horta, em outubro de 1915, uma peça onde a imagem, a mensagem e os sinais postais se conjugam para contar uma história de sociabilidade, afeto e representação social durante a Belle Époque.
Um postal vindo de Paris
O postal apresenta a cena «Tambour et Bouquetière (Ronde Enfantine)», produzida pela editora parisiense Croissant. A fotografia, colorida à mão, representa duas crianças trajadas para uma ronda infantil. Na parte inferior surge ainda um excerto musical, integrando imagem e canção numa linguagem visual muito apreciada nos postais de fantasia das primeiras décadas do século XX.
Não se trata de uma vista turística nem de um acontecimento histórico. O interesse da peça reside precisamente na forma como utiliza uma cena idealizada da infância para transmitir valores como a cortesia, a amizade, a inocência e a convivência harmoniosa. A própria pose das figuras, com a mão junto à boca, aproxima-se dos códigos visuais da delicadeza e da urbanidade então valorizados pela sociedade europeia.
Uma mensagem aparentemente banal
No verso encontra-se uma breve mensagem enviada por Raul a Adelina Maria Morais de Lima, residente na Horta:
Ex.ma Sr.ª D. Adelina
A fórmula de tratamento é reveladora. Apesar da evidente proximidade entre remetente e destinatária, o remetente mantém o formalismo linguístico característico das convenções epistolares do início do século XX.
Contudo, por detrás dessa formalidade emerge uma comunicação de tom pessoal. Raul recorda uma viagem, menciona os padrinhos e transmite uma manifestação de estima. A mensagem não procura transmitir informação urgente nem resolver qualquer assunto prático. Tem sobretudo uma função relacional: assinalar presença, cultivar a memória e reforçar um vínculo pessoal.
Um objeto de sociabilidade
Durante a Belle Époque, o bilhete-postal transformou-se num dos principais instrumentos de comunicação quotidiana. O seu baixo custo e rapidez permitiam a circulação constante de mensagens curtas entre familiares, amigos e conhecidos.
Mas este exemplar parece ultrapassar essa função utilitária.
A análise postal da peça revela alguns aspetos curiosos. O postal foi datado pelo remetente em 14 de outubro de 1915, sendo posteriormente obliterado na Horta em 19 de outubro de 1915. A franquia utilizada corresponde a um selo de ¼ de centavo da emissão Ceres com sobrecarga «Açores», valor associado à tarifa mais baixa então em vigor.
Acresce que o destinatário residia na própria Horta e que a peça contém uma mensagem manuscrita. A conjugação destes elementos sugere que estamos perante uma utilização pouco convencional do serviço postal, provavelmente associada à obtenção de um carimbo de favor e à conservação do postal como lembrança ou oferta.
Quando a imagem também comunica
É aqui que o postal adquire maior interesse do ponto de vista da filatelia social.
A imagem escolhida por Raul não é neutra. Ao selecionar uma cena infantil associada à amizade, à cortesia e à afetividade, o remetente introduz um discurso visual que complementa a mensagem escrita. O postal deixa de ser apenas um suporte de correspondência para se tornar um objeto simbólico.
A fotografia, o texto manuscrito e a marca postal funcionam em conjunto. A imagem não ilustra simplesmente a mensagem; participa ativamente na forma como o remetente pretende ser percecionado pelo destinatário.
Nessa perspetiva, o postal transforma-se simultaneamente em mensagem, lembrança e presente.
Um testemunho da Horta de 1915
A peça constitui também um testemunho da crescente difusão da literacia nos meios urbanos açorianos. A utilização corrente deste tipo de correspondência pressupunha competências de leitura e escrita que, embora cada vez mais comuns, ainda estavam longe de ser universais.
Ao mesmo tempo, documenta práticas de sociabilidade próprias da época: o cuidado na escolha da imagem, o respeito pelas fórmulas de cortesia, a valorização das recordações de viagem e a utilização de pequenos objetos impressos como instrumentos de construção e manutenção das relações pessoais.
Mais de um século depois, este singelo postal continua a cumprir uma função semelhante àquela para que foi criado: preservar uma memória e contar uma história. É precisamente nesta capacidade de transformar gestos quotidianos em património documental que reside grande parte do fascínio do colecionismo postal.
terça-feira, 7 de julho de 2026
Um lugar para o Colecionismo: "Um Mendigo" de Lagos: a pobreza como tema postal no Algarve do início do século XX
segunda-feira, 6 de julho de 2026
🌍 Cartas desinfetadas e epidemias no século XIX: um testemunho luso‑brasileiro de 1852
No século XIX, enviar uma carta entre continentes era mais do que um simples ato de comunicação: podia envolver riscos sanitários, controlos rigorosos e até processos de desinfeção. Em plena era de epidemias, acreditava-se que o papel podia transportar doenças, o que levou à criação de práticas hoje bem documentadas na história postal.
A peça que aqui se apresenta — uma carta expedida do Rio de Janeiro para o Porto em 1852 — constitui um excelente exemplo desta realidade, reunindo dimensões postal, fiscal e sanitária num único documento.
🌍 Uma carta em contexto: rotas, comércio e risco
A carta foi expedida a 19 de Abril de 1852, no Rio de Janeiro, tendo chegado ao Porto a 13 de Maio, após trânsito por Lisboa. Este percurso insere-se nas intensas ligações transatlânticas entre Brasil e Portugal na época pós‑independência, frequentemente servidas por circuitos britânicos.
A marca“P. BRIT.”, presente na peça, indica precisamente esse encaminhamento por via britânica — uma rede reconhecida pela regularidade e rapidez no transporte postal internacional.
Para além do valor comunicacional, este tipo de correspondência integrava redes comerciais e patrimoniais, como sugere o destinatário identificado:
Vicente José de Carvalho Vieira, figura abastada do Porto, associado à elite local.
🏥 O correio sob vigilância sanitária
Durante o século XIX, epidemias como a cólera levaram as autoridades a considerar a correspondência como potencial veículo de contágio.
Por esse motivo, muitas cartas — especialmente as provenientes de portos internacionais — eram sujeitas a quarentena e desinfeção em locais especializados, como os lazaretos.
Atendendo à data da peça (1852) e à sua origem transatlântica (Rio de Janeiro), é altamente provável que a desinfeção tenha sido motivada pelo receio de propagação da cólera ou febre amarela, doença que assolava a Europa em sucessivas pandemias durante a primeira metade do século XIX.
A carta aqui analisada apresenta cortes e manchas de desinfeção claramente visíveis, evidenciando que foi efetivamente submetida a esse tipo de procedimento.
⚗️ Como se desinfetavam as cartas?
Os métodos usados baseavam-se mais no receio do contágio do que em conhecimento científico rigoroso, mas eram aplicados de forma sistemática:
- Fumigação: exposição a vapores de enxofre, vinagre ou outras substâncias consideradas purificadoras
- Perfuração ou cortes: realizados no papel para permitir a penetração dos vapores desinfetantes
- Tratamentos químicos: em alguns casos com soluções ou gases, como o cloro, defendido em propostas científicas da época
Na peça em estudo, os cortes de desinfeção são um testemunho direto dessa prática — marcas físicas que documentam uma etapa invisível do percurso postal.
✉️ Uma peça rica em informação postal
Para além da dimensão sanitária, a carta apresenta uma estrutura postal complexa e particularmente interessante:
- Porte internacional atribuído em Lisboa: 720 réis
- Distribuição interna até ao Porto: 80 réis
- Total postal: 800 réis
- Imposto da Lei do Selo: 35 réis
Esta composição evidencia a coexistência de várias camadas administrativas:
- transporte marítimo intercontinental
- distribuição territorial
- fiscalidade associada à correspondência
A marca fiscal “LEI DE 20 … 35 Rs.” reforça esta dimensão, raramente tão visível em peças deste tipo.
📜 Entre ciência, prudência e prática postal
Hoje sabemos que o risco real de transmissão de doenças através de cartas era reduzido. No entanto, na época, a desinfeção do correio era considerada uma medida prudente e necessária.
A prática atingiu especial intensidade durante as epidemias de cólera das décadas centrais do século XIX.
Mais do que um procedimento eficaz, tratava-se de uma resposta institucional ao desconhecido — um esforço para equilibrar:
- a necessidade de comunicação
- a continuidade do comércio
- e a proteção da saúde pública
🧡 Valor filatélico e histórico
Esta carta destaca-se pela convergência de vários elementos raramente reunidos na mesma peça:
- percurso completo Brasil–Portugal com trânsito documentado
- integração em rotas internacionais britânicas
- estrutura tarifária composta e legível
- presença de marca fiscal
- evidência material de desinfeção postal
Do ponto de vista filatélico, trata-se de um exemplo particularmente expressivo da história postal oitocentista, com forte potencial expositivo em temas como:
- correio marítimo
- relações luso‑brasileiras
- fiscalidade postal
- história da saúde
✉️ Conclusão
As cartas desinfetadas são muito mais do que curiosidades postais. São documentos que refletem uma época em que o medo da doença moldava práticas administrativas e alterava até a forma física da correspondência.
No caso desta peça de 1852, cada corte no papel e cada marca postal contam uma história de circulação global — onde comércio, saúde e comunicação se cruzavam no mesmo objeto.
📚 Bibliografia
Abreu, L. (2023). Cólera em Portugal na segunda metade do século XIX: os lazaretos terrestres. Revista Portuguesa de História.
Recuperado de https://impactum-journals.uc.pt/rph/article/download/13029/9467 [impactum-j...nals.uc.pt]
Davidson, G. W. (1992). The Emmet F. Pearson collection of disinfected mail. Southern Illinois University.
Recuperado de https://books.google.com/books/about/The_Emmet_F_Pearson_Collection_of_Disinf.html?id=UJRqAAAAMAAJ
De Zanche, L. (1997). Storia della disinfezione postale in Europa e nell’area mediterranea.
Ellis, R. (2017). Disinfecting the mail: Disease, panic, and the Post Office Department in nineteenth‑century America. Information & Culture, 52(4).
Recuperado de https://www.jstor.org/stable/44668255 [jstor.org]
Meyer, K. F. (1962). Disinfected mail: Historical review and tentative listing of cachets. Gossip Printery.
Recuperado de https://books.google.com/books/about/Disinfected_Mail.html?id=UZRqAAAAMAAJ [books.google.com]
Mesquita, J. C. V. (2015). As epidemias de cólera‑morbus no século XIX.
Recuperado de https://archive.org/details/AlUlya2015Pag101A134JoseVMesquitaFINAL [archive.org]
Pita, A. S. (2017). A cólera em Lisboa (1833 e 1855/56): Emergência do poder médico e combate à epidemia.
Recuperado de https://www.academia.edu/40203416 [academia.edu]
Santos, L. A. C. (1994). Um século de cólera: Itinerário do medo. Physis: Revista de Saúde Coletiva, 4(1).
Recuperado de https://www.scielo.br/j/physis/a/C8D4T9Md38yvCpNrKTN8wmn/ [scielo.br]
Vandervelde, V. D., & Garcia, R. J. M. (1994). Gibraltar: Quarantine and disinfection of mail.
Disinfected Mail Study Circle. (s.d.). Pratique: Journal of the Disinfected Mail Study Circle.
Recuperado de https://wellcomecollection.org/concepts/de79nr54 [wellcomeco...ection.org]
Cortese, J. (2026). Cholera disinfected letters: Postal history from an age of epidemics.
Recuperado de https://www.noblespirit.com/blog/cholera-disinfected-letters-postal-history-from-an-age-of-epidemics
Portal do Filatelista Temático. (2018). O correio desinfectado.
Recuperado de https://filatelista-tematico-blog.net/o-correio-desinfectado/ [filatelist...o-blog.net]
sexta-feira, 3 de julho de 2026
📜 Histórias em Papel e Selo: O Valor Museológico de um Postal Transatlântico de 1904
Hoje partilhamos com a nossa comunidade uma análise detalhada sobre uma das peças mais fascinantes do nosso acervo, cuja curadoria foi recentemente revista. À primeira vista, trata-se de um simples bilhete postal ilustrado enviado em novembro de 1904. Contudo, sob o olhar da conservação e da investigação histórica, esta peça revela-se um autêntico documento de síntese da globalização na Belle Époque.
- Aceitação: Anvers – Rue de Jésus (18 NOV 1904).
- Trânsito: Lisboa Central – 2ª Secção (22 NOV 1904), confirmando o papel do porto de Lisboa como placa giratória para o Atlântico Sul.
- Chegada: Montevideo (09 DEZ 1904).
- O Verso Não Dividido: O layout do postal pertence ao período anterior à generalização do verso dividido. O espaço manuscrito era tão limitado que o remetente, Louis Coens, fez apenas um registo funcional.
- A Tarja Dominical Belga: O selo de 5 cêntimos (Brasão de Armas) mantém intacta a famosa vinheta "Ne pas livrer le dimanche" (Não entregar ao domingo). Trata-se de um reflexo material das tensões político-religiosas da época sobre o descanso dominical na Europa.








