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quinta-feira, 9 de julho de 2026

Raul, Adelina e um Postal de Fantasia: Sociabilidade e Memória na Horta de 1915


A história do colecionismo é feita de pequenos objetos que, quando observados com atenção, revelam muito mais do que a sua aparência sugere. É precisamente o caso deste bilhete-postal ilustrado enviado na Horta, em outubro de 1915, uma peça onde a imagem, a mensagem e os sinais postais se conjugam para contar uma história de sociabilidade, afeto e representação social durante a Belle Époque.

Um postal vindo de Paris

O postal apresenta a cena «Tambour et Bouquetière (Ronde Enfantine)», produzida pela editora parisiense Croissant. A fotografia, colorida à mão, representa duas crianças trajadas para uma ronda infantil. Na parte inferior surge ainda um excerto musical, integrando imagem e canção numa linguagem visual muito apreciada nos postais de fantasia das primeiras décadas do século XX.

Não se trata de uma vista turística nem de um acontecimento histórico. O interesse da peça reside precisamente na forma como utiliza uma cena idealizada da infância para transmitir valores como a cortesia, a amizade, a inocência e a convivência harmoniosa. A própria pose das figuras, com a mão junto à boca, aproxima-se dos códigos visuais da delicadeza e da urbanidade então valorizados pela sociedade europeia.

Uma mensagem aparentemente banal

No verso encontra-se uma breve mensagem enviada por Raul a Adelina Maria Morais de Lima, residente na Horta:

Ex.ma Sr.ª D. Adelina

A fórmula de tratamento é reveladora. Apesar da evidente proximidade entre remetente e destinatária, o remetente mantém o formalismo linguístico característico das convenções epistolares do início do século XX.

Contudo, por detrás dessa formalidade emerge uma comunicação de tom pessoal. Raul recorda uma viagem, menciona os padrinhos e transmite uma manifestação de estima. A mensagem não procura transmitir informação urgente nem resolver qualquer assunto prático. Tem sobretudo uma função relacional: assinalar presença, cultivar a memória e reforçar um vínculo pessoal.

Um objeto de sociabilidade

Durante a Belle Époque, o bilhete-postal transformou-se num dos principais instrumentos de comunicação quotidiana. O seu baixo custo e rapidez permitiam a circulação constante de mensagens curtas entre familiares, amigos e conhecidos.

Mas este exemplar parece ultrapassar essa função utilitária.

A análise postal da peça revela alguns aspetos curiosos. O postal foi datado pelo remetente em 14 de outubro de 1915, sendo posteriormente obliterado na Horta em 19 de outubro de 1915. A franquia utilizada corresponde a um selo de ¼ de centavo da emissão Ceres com sobrecarga «Açores», valor associado à tarifa mais baixa então em vigor.

Acresce que o destinatário residia na própria Horta e que a peça contém uma mensagem manuscrita. A conjugação destes elementos sugere que estamos perante uma utilização pouco convencional do serviço postal, provavelmente associada à obtenção de um carimbo de favor e à conservação do postal como lembrança ou oferta.

Quando a imagem também comunica

É aqui que o postal adquire maior interesse do ponto de vista da filatelia social.

A imagem escolhida por Raul não é neutra. Ao selecionar uma cena infantil associada à amizade, à cortesia e à afetividade, o remetente introduz um discurso visual que complementa a mensagem escrita. O postal deixa de ser apenas um suporte de correspondência para se tornar um objeto simbólico.

A fotografia, o texto manuscrito e a marca postal funcionam em conjunto. A imagem não ilustra simplesmente a mensagem; participa ativamente na forma como o remetente pretende ser percecionado pelo destinatário.

Nessa perspetiva, o postal transforma-se simultaneamente em mensagem, lembrança e presente.

Um testemunho da Horta de 1915

A peça constitui também um testemunho da crescente difusão da literacia nos meios urbanos açorianos. A utilização corrente deste tipo de correspondência pressupunha competências de leitura e escrita que, embora cada vez mais comuns, ainda estavam longe de ser universais.

Ao mesmo tempo, documenta práticas de sociabilidade próprias da época: o cuidado na escolha da imagem, o respeito pelas fórmulas de cortesia, a valorização das recordações de viagem e a utilização de pequenos objetos impressos como instrumentos de construção e manutenção das relações pessoais.

Mais de um século depois, este singelo postal continua a cumprir uma função semelhante àquela para que foi criado: preservar uma memória e contar uma história. É precisamente nesta capacidade de transformar gestos quotidianos em património documental que reside grande parte do fascínio do colecionismo postal.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Um lugar para o Colecionismo: "Um Mendigo" de Lagos: a pobreza como tema postal no Algarve do início do século XX

Um lugar para o Colecionismo: "Um Mendigo" de Lagos: a pobreza como tema postal ...Os cartões-postais ilustrados são fontes históricas muito mais ricas do que frequentemente se imagina. Para além da sua dimensão postal e colecionista, podem revelar aspetos das mentalidades, das identidades locais e das desigualdades sociais de uma época. O exemplar hoje destacado no blogue Um Lugar para o Colecionismo convida-nos a refletir sobre a representação da pobreza no Algarve do início do século XX e sobre a forma como determinadas realidades humanas eram transformadas em memória visual e objeto de circulação pública.


sexta-feira, 3 de julho de 2026

📜 Histórias em Papel e Selo: O Valor Museológico de um Postal Transatlântico de 1904

Verso do bilhete postal belga de 1904, com o cabeçalho impresso "CARTE POSTALE. POSTKAART". Apresenta um selo verde belga de 5 cêntimos com a tarja dominical no canto superior direito, obliterado por carimbo. Estão visíveis mais dois carimbos postais nítidos: um circular preto no canto inferior esquerdo de "Lisboa Central - 2ª Secção" com a data "22-11-04", e outro à direita de "Montevideo - Uruguay" com a data "9 DEZ 1904". O endereço está manuscrito em tinta preta para Sr. Ramon Lambias em Montevideu. No canto superior esquerdo consta a marca de água verde "Museu Filatelia SP".

Hoje partilhamos com a nossa comunidade uma análise detalhada sobre uma das peças mais fascinantes do nosso acervo, cuja curadoria foi recentemente revista. À primeira vista, trata-se de um simples bilhete postal ilustrado enviado em novembro de 1904. Contudo, sob o olhar da conservação e da investigação histórica, esta peça revela-se um autêntico documento de síntese da globalização na Belle Époque.

Por que razão este postal possui um valor museológico tão relevante? Deixamos os quatro pontos fundamentais que fazem desta peça um objeto digno de exposição:
1. Uma Cadeia Logística Perfeitamente Documentada
O maior mérito científico desta peça reside na legibilidade absoluta do seu percurso transatlântico. O verso apresenta três marcas cronológicas nítidas que nos permitem reconstruir uma viagem de 21 dias exatos entre a Bélgica e o Rio da Prata:
  • Aceitação: Anvers – Rue de Jésus (18 NOV 1904).
  • Trânsito: Lisboa Central – 2ª Secção (22 NOV 1904), confirmando o papel do porto de Lisboa como placa giratória para o Atlântico Sul.
  • Chegada: Montevideo (09 DEZ 1904).
Esta integridade de marcas postais é o cenário ideal para qualquer museu, pois funciona como um recurso didático perfeito para explicar a eficácia e a previsibilidade dos transportes ferroviários e marítimos no início do século XX.
2. Testemunho das Grandes Rotas Marítimas
A análise cruzada de datas permite-nos associar este envio às carreiras regulares de transporte de malas postais da época. Cruzando os dados da frota ativa em novembro de 1904, o postal terá cruzado o Atlântico a bordo de emblemáticos vapores da Royal Mail Steam Packet Company (como o RMS Danube ou o RMS Nile) ou, alternativamente, da Hamburg Süd (como o Cap Blanco ou o Cap Ortegal).
3. Arqueologia de Práticas Regulamentares Extintas
Do ponto de vista da história postal, o exemplar conserva duas características técnicas de transição que já não existem no sistema moderno:
  • O Verso Não Dividido: O layout do postal pertence ao período anterior à generalização do verso dividido. O espaço manuscrito era tão limitado que o remetente, Louis Coens, fez apenas um registo funcional.
  • A Tarja Dominical Belga: O selo de 5 cêntimos (Brasão de Armas) mantém intacta a famosa vinheta "Ne pas livrer le dimanche" (Não entregar ao domingo). Trata-se de um reflexo material das tensões político-religiosas da época sobre o descanso dominical na Europa.
4. O Objeto Explica a sua Própria Existência
Ao contrário de correspondência comercial ou familiar privada, a escassez de texto e a natureza do envio enquadram esta peça de forma inequívoca nas dinâmicas de intercâmbio cartofílico. Ou seja, o postal viajou pelo mundo pelo simples prazer de ser colecionado. Mais de um século depois, cumpre finalmente o seu propósito ao ser preservado e estudado no nosso Museu.
Anverso de postal de 1904 de Antuérpia (Bélgica) com assinatura de Louis Coens e imagem da praça Le Marché aux Oeufs com a Catedral ao fundo. Marca de água do Museu de Filatelia SP.

👉 A ficha de catálogo, com a análise técnica e histórica detalhada, encontra-se publicado no Acervo & Ensaio, órgão de estudo do Museu de Filatelia Sérgio Pedro, onde o documento foi integrado no corpus de investigação do museu

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